
Manual de Sobrevivência em Corpo de Mulher
Trecho do primeiro capítulo de Manual de Sobrevivência em Corpo de Mulher: Crônicas de uma vida em estilhaços, obra de Amanda Corvell. A narrativa acompanha Maria Clara desde o instante do nascimento, mostrando como expectativas, silêncios e pequenas violências podem marcar uma vida inteira muito antes que existam palavras para nomeá-las.
LIVRO I: AS RAÍZES DO SILÊNCIO
1 O Primeiro Luto: Quando Nascer Menina Já É Falha Original
Crônica sobre a rejeição pré-verbal
O ar do centro obstétrico cheirava a esperança e antisséptico. Minha mãe, Marina, suava entre contrações que a dobravam como papel amassado, enquanto meu pai, Vicente, mantinha suas mãos presas com uma força que prometia mundos inteiros. Por nove meses, tinham resistido à tentação do ultrassom morfológico que revelaria o sexo. “Queremos surpresa”, diziam aos amigos, com sorrisos que escondiam a verdade: meu pai carregava no peito uma oração silenciosa, repetida como mantra toda noite antes de dormir, uma prece ancestral que vinha de seu avô, passara por seu pai e agora habitava seus sonhos mais profundos: “Que seja menino”. A sala 304 do hospital era pequena, com paredes de um verde hospitalar desbotado e uma janela que dava para o estacionamento. Minha avó paterna, Dona Matilde, tecia um sapatinho azul de lã. “É melhor preparar”, dissera ao saber da gravidez. Minha avó materna, por sua vez, tricotava em amarelo, cor neutra. Mas no olhar de ambas havia uma tensão palpável, um cabo de guerra silencioso entre duas linhagens que apostavam no sexo do futuro herdeiro. Quando a cabeça coroou e o médico, um homem de mãos surpreendentemente suaves chamado Dr. Lúcio, anunciou “Está quase!”, o silêncio na sala tinha espessura. Minha mãe gritou um último grito que vinha das profundezas da terra, e eu emergi – viscosa, enroscada no cordão, com os punhos cerrados como quem já sabe que terá que lutar. O médico me levantou, uma criatura enrugada e ensanguentada, e declarou: “Parabéns, é uma menina linda!”. O que se seguiu não foi o alívio pós-parto, nem os abraços emocionados que se veem nos filmes. Houve um segundo – que pareceu durar uma eternidade – de silêncio absoluto. Um silêncio que tinha peso, textura, cheiro. O silêncio do sonho desmoronando. Então minha avó Matilde soltou um suspiro que era quase um gemido: “Tudo bem. Na próxima será menino”. Na próxima. As quatro sílabas pairaram no ar, contaminando o momento. Como se eu fosse ensaio, rascunho, primeira tentativa para o personagem principal que ainda estava por vir. Meu pai não chorou de emoção. Seus olhos, que há segundos brilhavam com expectativa, agora pareciam vidros foscos. Ele pegou-me nos braços – suas mãos grandes e calejadas de engenheiro tremendo ligeiramente – e murmurou: “É linda”. Mas o adjetivo soava como consolação, como se tentasse convencer a si mesmo. Beijou minha testa com uma reverência que era quase um pedido de desculpas – desculpas por ter esperado outra coisa, por ter sonhado com outro rosto. As enfermeiras me limparam, pesaram (3,2 kg), mediram (48 cm), e enrolaram-me num cobertor rosa. Não um rosa suave, poético, mas um rosa berrante, quase fluorescente, a cor de algodão-doce artificial. Era como se a instituição médica, percebendo a decepção no ar, tentasse compensar com estereótipos exagerados: “É menina, então vamos deixar bem claro!”. Nos dias seguintes, as visitas trouxeram presentes que eram declarações de gênero: vestidos com babados excessivos, gorros com laços gigantes, móbiles de bailarinas, livros de princesas. Minha mãe, ainda fraca da cesárea, tentava sorrir para cada presente, mas eu a via à noite, quando pensava que ninguém observava, olhando para mim no berço com uma expressão que mesclava amor infinito e uma tristeza profunda. Ela sabia. Sabia que minha vida seria mais difícil por ser mulher. Sabia que carregaria o peso da decepção paterna. Sabia que, de alguma forma, eu já começava em desvantagem. Meu quarto foi pintado de rosa-chá. “É mais delicado”, disse minha avó Matilde, escolhendo a tinta pessoalmente. As prateleiras encheram-se de bonecas de porcelana de olhos azuis e cabelos loiros, todas com expressões vazias e vestidos impossíveis de tirar. Meu primeiro brinquedo não foi uma bola, nem blocos de montar, nem carrinhos – foi uma boneca que chorava quando deitada, exigindo ser pega no colo. Treinamento precoce para maternidade.
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Este é apenas um trecho de Manual de Sobrevivência em Corpo de Mulher. Ao longo da obra, Amanda Corvell conduz o leitor por diferentes momentos da vida de Maria Clara, revelando como experiências cotidianas moldam identidade, memória, afeto e resistência.
Adquirir a obra completaSobre a autora
Amanda Corvell é escritora brasileira e desenvolve narrativas voltadas à memória, ao corpo, às relações humanas e às experiências femininas. Seus livros transitam entre a ficção literária, a reflexão social e a construção de personagens marcadas por profundidade emocional.